E assim, numa penada, chego aos 30 anos de atividade empresarial.
Se fosse músico faria um álbum, sendo consultor escrevo um texto.
Tenho uma vida profissional dedicada ao Desenvolvimento de Territórios.
Inicialmente em grandes investimentos públicos, hoje na captação de investimentos privados para territórios rurais.
Quando o leitor percorrer estradas como a A23 (à época IP6), A8/A15 ou IC8, saiba que foi por aí que comecei.
No registo de imagem das técnicas e dos trabalhos executados, no contacto com as populações, imprensa e autarcas, para o meu cliente Junta Autónoma de Estradas.
Neste capitulo, a Ponte Vasco da Gama e o Aeroporto Francisco Sá Carneiro são sem dúvida os projectos que mais me marcaram, nem sempre pelas melhores razões.
Neste periodo colaborei com três pessoas que jamais esquecerei: José Manuel Pantaleão; Luísa Paredes Resina; Rui Felgueiras.
Julgo que nem todos reformados, mas naturalmente a caminho disso.
Ao fim de trinta anos de profissão, é natural que sintamos que somos os novos séniores da nossa área, muito embora os nomeados sejam todos formados em Engenharia Civil, que não é nem será a minha formação.
O que era Portugal em 1992?
Governado há 7 anos por Aníbal Cavaco Silva, Portugal era um país que se destacava pela infraestruturação, fruto do financiamento europeu para a coesão: vias rodoviárias, equipamentos municipais.
Foi também o período em que captámos o investimento da Auto-Europa, motor da renovação empresarial na península de Setúbal, após o desaparecimento da Setenave e da fábrica da Renault.
Até aí, Setúbal era a única capital de Distrito que ligava a Lisboa por Auto-estrada.
Sim, leu bem. Nem Santarém.
As figuras políticas da época eram o António Guterres, acabado de ser eleito Secretário Geral do Partido Socialista, secundado por Jaime Gama, Augusto Mateus, João Cravinho, Maria João Rodrigues, entre outros.
No lado do partido do governo, o odor era mais bafiento, próprio de 7 anos de governação com maioria absoluta.
O PIB per capita da União Europeia era de USD 17.500, que contrasta com os USD 38.300 atuais.
Portugal estava 38% abaixo da média da UE, atraso que mantém mesmo após a entrada de países mais pobres no espaço europeu.
Isso significa que o investimento concretizado em Portugal pelos fundos para a coesão tiveram um efeito nulo ou contraproducente?
Obviamente contraproducente.
"Novos Povoadores"
Uma marca que definiu uma visão e um movimento para os territórios rurais em Portugal.
Foi com esse pretexto que realizei mais de 150 ações motivacionais para o empreendedorismo em territórios rurais.
Quando o projecto foi tornado público, em 2009, era consensual dizer que o meio rural não tinha atrativos para novas familias.
Hoje, as empresas vivem embaraçadas com o desejo dos seus trabalhadores em manterem-se a viver nesses territórios e indisponíveis para o regresso ao rebuliço citadino.
Para este novo contexto, muito contribuiu a adoção desta visão pela politica pública: primeiro com a Unidade de Missão para a Valorização do Interior, hoje Secretaria de Estado.
Chego a este ponto sem saber se a letargia das economias rurais é causa ou consequência do Poder Local.
O eleitor português vota em função dos seus interesses individuais. Vota no politico que julga poder influenciar. E o eleito corresponde, para se eternizar na função.
Captação de Investimento
É o meu novo capítulo.
Vivemos a monocultura do Turismo.
É um sector que funciona, mas se aquilo que pretendemos vender é a autenticidade, convém que o IAPMEI faça mais e melhor pelos negócios que fazem sentido apoiar.
Comecei este capitulo da minha vida profissional a pensar que Contact Centers ou Centros de Programação faziam sentido, pelo dinheiro que introduzem nesses territórios.
Mas a realidade é distinta: um programador ganha menos que um funcionário mal pago na restauração.
Com dificuldade paga a casa e o supermercado.
É uma cultura de novos pobres, que deveríamos dispensar enquanto estratégia.
Em 30 anos, participei em muitos sucessos e alguns insucessos.
Assumo sem receio.
Como qualquer pessoa que ousa acreditar, nem sempre o caminho foi glorioso.
A solução é deixar de sonhar.
E hoje sonho muito menos. Em português.