As tempestades que têm atingido Portugal nos últimos dias expuseram, de forma brutal, uma fragilidade estrutural que o país continua a adiar: a incapacidade de responder rapidamente a choques extremos que destroem habitações, rendimentos e estabilidade social.
Na Beira Litoral, Kristin deixou um rasto de destruição; no Alentejo, centenas de habitações foram inundadas numa única noite; no Ribatejo, as previsões apontam para um cenário semelhante.
Milhares de pessoas ficam, de um momento para o outro, sem teto, sem condições mínimas de sobrevivência e, sobretudo, sem um horizonte claro de regresso à normalidade.
Perante este cenário, persiste a tendência para olhar o turismo como um setor supérfluo, quando, na realidade, ele concentra um dos maiores reservatórios de know-how construtivo, logístico e operacional do país. O setor do turismo português desenvolveu, ao longo de décadas, uma capacidade ímpar de conceber e executar alojamentos modulares, rápidos, replicáveis e funcionais: bungalows, unidades pré-fabricadas, soluções em madeira ou light steel frame são produzidas em escala, montadas em poucas semanas e pensadas para conforto, eficiência energética e durabilidade. Esta competência existe, está instalada e é economicamente viável. Ignorá-la num momento de emergência humanitária não é apenas um desperdício de recursos: é um erro estratégico.
Importa, contudo, reconhecer que a resposta não pode ser pensada apenas como uma solução de curtíssimo prazo. Quem perde, em poucas semanas, aquilo que foi o maior investimento de toda uma vida, a habitação, não recupera em meses. Estas famílias enfrentam necessidades de médio prazo que envolvem estabilidade residencial, reorganização económica, continuidade profissional e manutenção dos laços comunitários.
O Estado, por mais diligente que seja, não consegue responder sozinho a esta escala temporal sem gerar dependência prolongada ou soluções precárias. A ausência de planeamento transforma uma catástrofe natural num problema social crónico.
É neste contexto que o turismo pode, e deve, assumir um papel diferente. Os alojamentos temporários que hoje podem ser mobilizados como resposta de emergência não precisam de ser descartáveis. Pelo contrário: se forem concebidos desde o início com uma lógica de ciclo de vida longo, poderão, numa fase posterior, ser integrados no setor turístico como complemento de rendimento das famílias afetadas ou como oferta estruturada de turismo social.
Esta lógica não é inédita em Portugal. Basta recordar que, aquando da Expo 98, foram construídos edifícios para alojar turistas que, mais tarde, foram integrados no parque habitacional, servindo hoje milhares de famílias. O que então foi um exercício de planeamento urbano pode agora ser replicado, à escala adequada, como planeamento social e territorial, aplicado a contextos de emergência climática.
A conversão destes alojamentos em soluções de turismo social introduz ainda uma segunda dinâmica virtuosa: a mobilização consciente da sociedade civil. O turista que sabe que a sua estada contribui diretamente para a reorganização e autonomia de famílias afetadas por catástrofes naturais deixa de ser um consumidor passivo e passa a integrar um ecossistema de responsabilidade coletiva. A estada transforma-se num gesto económico com impacto social mensurável, gerando receitas para manutenção e gestão das infraestruturas, reduzindo a dependência de apoios públicos permanentes e criando um modelo transparente de solidariedade aplicada.
No fundo, trata-se de uma mudança de paradigma. O turismo deixa de ser apenas uma atividade económica orientada para o lazer e passa a ser reconhecido como infraestrutura social flexível, capaz de responder à emergência, apoiar a reconstrução e, mais tarde, gerar valor sustentável para os territórios.
Uma resposta desta natureza não pode continuar refém da inércia política nem da lógica do remendo. Exige comando, coordenação e responsabilidade pública clara. O Turismo de Portugal e a PLANAPP não podem ser ilhas técnicas num mar de indecisão: é imperativo envolver as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, o IHRU – Institute for Housing and Urban Rehabilitation , a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil , a Direção-Geral do Território , os municípios e a economia social numa cadeia única de decisão.
As competências existem. Os instrumentos legais existem. Os recursos financeiros estão identificados. O que falta não é conhecimento nem capacidade técnica: é vontade política para assumir que o Estado tem de liderar. Se essa liderança não existir, o vazio será preenchido por soluções avulsas, oportunistas e desordenadas, que hipotecam o território e transferem para o futuro os custos da ausência de decisão no presente.
Num país estruturalmente vulnerável a choques climáticos, a falta de planeamento não é um erro administrativo: é uma falha política grave, cujas consequências recaem sobre todos.
