Sunday, December 4, 2022

O Erro do Retalho

Não sei há quantas décadas foi inventado o "cheque-presente".
Uma técnica de vendas que servia garantir que o beneficiário recebia um produto/serviço que corresponderia com os seus desejos.

A rede de distribuição SONAE tem lojas para todas as necessidades: alimentação; saúde; vestuário; electrónica.
Existe alguém que possa tirar melhor partido dos cheques-prenda?

Um cheque-prenda SONAE permitiria que o beneficiário comprasse aquilo que precisa. O cliente pode ter em mente que estará a oferecer uns headphones bluetooth com redução de ruído, mas a realidade pode ser bem diferente, como endereçar esse valor para um amigo que precisa de ajuda para a conta do supermercado.

Num periodo particularmente conturbado, com 4 milhões de potenciais pobres, não cabe às corporações substituirem-se ao Estado. Apenas o dever de responderem com inteligência aos novos contextos sociais.

Ganha quem antecipa.

Friday, November 18, 2022

Frederico Lucas Lda. (est. 18/11/1992)

E assim, numa penada, chego aos 30 anos de atividade empresarial.
Se fosse músico faria um álbum, sendo consultor escrevo um texto.

Tenho uma vida profissional dedicada ao Desenvolvimento de Territórios.
Inicialmente em grandes investimentos públicos, hoje na captação de investimentos privados para territórios rurais.

Quando o leitor percorrer estradas como a A23 (à época IP6), A8/A15 ou IC8, saiba que foi por aí que comecei.
No registo de imagem das técnicas e dos trabalhos executados, no contacto com as populações, imprensa e autarcas, para o meu cliente Junta Autónoma de Estradas.
Neste capitulo, a Ponte Vasco da Gama e o Aeroporto Francisco Sá Carneiro são sem dúvida os projectos que mais me marcaram, nem sempre pelas melhores razões.

Neste periodo colaborei com três pessoas que jamais esquecerei: José Manuel Pantaleão; Luísa Paredes Resina; Rui Felgueiras.
Julgo que nem todos reformados, mas naturalmente a caminho disso.
Ao fim de trinta anos de profissão, é natural que sintamos que somos os novos séniores da nossa área, muito embora os nomeados sejam todos formados em Engenharia Civil, que não é nem será a minha formação.

O que era Portugal em 1992?

Governado há 7 anos por Aníbal Cavaco Silva, Portugal era um país que se destacava pela infraestruturação, fruto do financiamento europeu para a coesão: vias rodoviárias, equipamentos municipais.

Foi também o período em que captámos o investimento da Auto-Europa, motor da renovação empresarial na península de Setúbal, após o desaparecimento da Setenave e da fábrica da Renault.
Até aí, Setúbal era a única capital de Distrito que ligava a Lisboa por Auto-estrada.
Sim, leu bem. Nem Santarém.

As figuras políticas da época eram o António Guterres, acabado de ser eleito Secretário Geral do Partido Socialista, secundado por Jaime Gama, Augusto Mateus, João Cravinho, Maria João Rodrigues, entre outros.

No lado do partido do governo, o odor era mais bafiento, próprio de 7 anos de governação com maioria absoluta.

O PIB per capita da União Europeia era de USD 17.500, que contrasta com os USD 38.300 atuais.
Portugal estava 38% abaixo da média da UE, atraso que mantém mesmo após a entrada de países mais pobres no espaço europeu.

Isso significa que o investimento concretizado em Portugal pelos fundos para a coesão tiveram um efeito nulo ou contraproducente?

Obviamente contraproducente.

"Novos Povoadores"

Uma marca que definiu uma visão e um movimento para os territórios rurais em Portugal.
Foi com esse pretexto que realizei mais de 150 ações motivacionais para o empreendedorismo em territórios rurais.

Quando o projecto foi tornado público, em 2009, era consensual dizer que o meio rural não tinha atrativos para novas familias.
Hoje, as empresas vivem embaraçadas com o desejo dos seus trabalhadores em manterem-se a viver nesses territórios e indisponíveis para o regresso ao rebuliço citadino.
Para este novo contexto, muito contribuiu a adoção desta visão pela politica pública: primeiro com a Unidade de Missão para a Valorização do Interior, hoje Secretaria de Estado.

Chego a este ponto sem saber se a letargia das economias rurais é causa ou consequência do Poder Local.
O eleitor português vota em função dos seus interesses individuais. Vota no politico que julga poder influenciar. E o eleito corresponde, para se eternizar na função.

Captação de Investimento

É o meu novo capítulo.
Vivemos a monocultura do Turismo.
É um sector que funciona, mas se aquilo que pretendemos vender é a autenticidade, convém que o IAPMEI faça mais e melhor pelos negócios que fazem sentido apoiar.

Comecei este capitulo da minha vida profissional a pensar que Contact Centers ou Centros de Programação faziam sentido, pelo dinheiro que introduzem nesses territórios.
Mas a realidade é distinta: um programador ganha menos que um funcionário mal pago na restauração.
Com dificuldade paga a casa e o supermercado.
É uma cultura de novos pobres, que deveríamos dispensar enquanto estratégia.

Em 30 anos, participei em muitos sucessos e alguns insucessos.
Assumo sem receio.
Como qualquer pessoa que ousa acreditar, nem sempre o caminho foi glorioso.
A solução é deixar de sonhar.
E hoje sonho muito menos. Em português.

Thursday, September 15, 2022

Socialismo na Gaveta II

É a segunda vez que o Partido Socialista é a própria vítima da sua politica.
A história revela que quando o PS governa, sobra para o PSD a restruturação económica.
Foi assim depois das DUAS bancarrotas no pós-revolução.
Foi assim após o incidente José Sócrates.

Para "salvar" a carreira política, António Costa fez o que nunca tinha acontecido em Portugal: tirou o partido mais votado da governação, sem eleições.
São as regras de quem espera memória curta do seu eleitorado.
Prometeu tudo o que uma sereia poderia prometer: reversão imediata de salários e pensões, mais apoios sociais e muitas, muitas promessas para o "fim da austeridade".
E, sem se rir, conseguiu dizer durante anos que tinha acabado a austeridade num dos países mais endividados do mundo.

Os eleitores sabiam e sabem que ele estava a mentir, mas à boa maneira lusitana "trocam o seu voto por um dia de ilusão".

Dizem os livros de economia que distribuir dinheiro sem a contrapartida da criação de riqueza tem uma consequência: inflação.
A mesma que conhecemos hoje.
Como estamos em guerra, a culpa é da Guerra, apesar de sabermos que se retirarmos esse factor, te-la-íamos do mesmo modo.

Em nome do populismo, desbaratámos esforço de todos os portugueses para o reequilibrio das contas públicas.
Agora, num contexto adverso, não é possível esconder o óbvio: é preciso cortar nas pensões e nos salários da função pública.

António Costa tem três bons amigos para as ocasiões: Luís Paixão Martins, Vitor Escária e Lacerda Machado.
Este é o momento certo para os chamar para criarem uma campanha de Segurança Rodoviária, Combate à Violência Doméstica, ou pela Igualdade de Género.

O que é bom sai sempre bem.

Wednesday, August 17, 2022

“ayatollah de Barcarena”

Fotografia de Nuno Ferreira Santos, Público
Sou amigo de Sérgio Figueiredo.

Recebi com estupefação a notícia da contratação de Sérgio Figueiredo para o Governo, no caso concreto para o Gabinete do Ministro das Finanças.

Sérgio Figueiredo, tal como João Cotrim Figueiredo, presidente do meu partido, são pessoas com carreira profissional dentro e fora da política.
Este Governo não teve a sorte de envolver este tipo de pessoas.
Limitou-se a nomear amigos, amigos de amigos e amigos do alheio. Por parte daquele a quem não se conhece atividade profissional: António Costa.
(Não considerei a atividade de especulação imobiliária como profissão.)

Não acreditava, nem acredito, que Sérgio Figueiredo pudesse trazer alguma dignidade a um Governo que ficará para a História como o pior desde o tempo de Salazar.
Pior em Estratégia, em Serviços Públicos, em Sustentabilidade Ambiental e Económica, em Desenvolvimento.
Em síntese: o pior.

No passado dia 9 de Agosto o Público apelidou Sérgio Figueiredo de “ayatollah de Barcarena”, acrescentando que José Sócrates consta na lista de seus amigos.
Podia ter dito, mas não disse, que o “Ayatollah de São Bento” é seu inimigo.
Não gerava o efeito pretendido.

As redes sociais incendiaram-se em ódio porque a empresa que o Sérgio dirige cobraria o equivalente ao salário de Ministro pelos seus serviços.
Tudo isto enquanto ardia a Serra da Estrela, porque o Cmdt dos Bombeiros Voluntários da Covilhã deixou que o mesmo, na fase embrionária, se escapasse para Manteigas.
Morreram animais, perdeu-se o maior pulmão de Portugal e atirou-se com o fumo para Espanha.

Portugal pode viver de fait divers. Mas não deixará de ser ultrapassado pela Roménia - sim, a Roménia! -  quando o atual Governo terminar funções.
Nessa altura o país será confrontado com a existência de portugueses nos semáforos desse país, a pedir ajuda para comer.


Saturday, April 18, 2020

Dependências



Acordei cedo e cedo percebi que não tinha café em casa.
Pânico!

Vesti-me e saí, determinado a colmatar essa falha.
Para além das necessidades básicas, o café é verdadeiramente uma dependência.

Costumava aproveitar as férias para desintoxicar de duas coisas: café e telemóvel.
Era tomado por uma dor de cabeça nos primeiros dias - igual à atual pelo confinamento - e passada uma semana, sentia-me com um mês cumprido de férias.
Aprendi que é a solução express para quando preciso de descansar.

Chegado a casa, e sem demoras, café a sair: quente e espumoso como gosto.

Regresso à rotina: e-mails e notícias.

São 14:00 e só agora olhei para o lado: aqui está o café, intocado, frio e sem espuma.




Tuesday, March 24, 2020

Unexpected Managers Precisam-se!

Covid-19, a palavra por todos conhecida, mas inesperada.

Ninguém estava à espera de viver uma Pandemia.

Construímos um mundo cuja economia crescia todos os anos, sustentado no endividamento alheio e nos "futuros".
Construímos um mundo que não está preparado para o imprevisto, ainda menos para uma pandemia à escala global.
Neste momento somos metralhados pelos nrs. de infectados e de óbitos.
Os países que fazem menos testes à população são aqueles que comunicam menores nrs. de infectados: realpolitik
Já temos tudo o que não precisamos.

Portugal também não estava preparado para isto.
Nas redes sociais apela-se ao apoio das startups, dos empreendedores sociais, dos profissionais de saúde, enfim, apela-se à criatividade e à capacidade de ação de todos aqueles que são atirados diariamente à sua sorte e por isso experientes em gerir o imprevisto.

A falta de ventiladores não é nova.
Nos últimos meses, vários hospitais denunciaram o adiamento de cirurgias por falta de ventiladores nas salas de operações.
A isso, o Governo respondeu com inaugurações de Unidades de Saúde Familiar e com o lançamento da primeira pedra das obras da unidade de pediatria do Hospital de São João no Porto.
Segundo o Primeiro Ministro, seguiu ontem para a China um cheque de USD10.000.000 para pagar antecipadamente 500 novos ventiladores.

Na vizinha Espanha, a SEAT já informou que vai passar a produzir ventiladores com os motores dos limpa para-brisas dos automóveis.
São os gestores do inesperado a marcar pontos no maior campeonato das nossas vidas.

Wednesday, August 5, 2015

Sentido da Vida

 “As fábricas retiraram milhões de chineses dos campos,
os robots estão a entrar nas fábricas
e os operários não querem voltar a ser agricultores.”


João Vale de Almeida, Diplomata




A robotização das fábricas tem sido observada com grande reserva por uma parte significativa da população mundial.
O filme “Os tempos modernos” de Charlie Chaplin não é compreendido por todos.

A história do mundo não se faz com recordistas de linhas de montagem. São tarefas banais e repetitivas, que algum equipamento terá a capacidade de executar.
Complexas são as atividades que exigem cultura, sensibilidade e consciência.
Valores que uma máquina não saberá interpretar, e que diferenciam cada um de nós, consequência dos nossos percursos e contextos.

A robotização é um aliado do Ser Humano, porque o liberta de tarefas manuais. Conduz a Humanidade para as tarefas intelectuais, sua vocação.

Na Europa, este processo decorre há várias décadas, e os elevados níveis de desemprego espalham algum receio na sociedade.
Estamos a falhar no essencial: é legítimo e natural, que geração dos nossos filhos venha a trabalhar quatro horas por dia. E que essas horas sejam tempo de criação, em oposição a tarefas burocráticas ou repetitivas, mas sempre mal pagas.

O poder de compra descerá em contraciclo com o poder da mente.

As fábricas que outrora poluíram rios, estarão no futuro a fazer o processo inverso: a recolher resíduos nesses rios e a produzir capas para iPhones com esses detritos, num modelo conhecido por upcycling.
Esses rios regressarão à sua função: espaço de lazer para o reino animal, incluindo o Seres Humanos, que deixaram de os frequentar por “falta de tempo”.

Pelo exposto, sou um defensor da robotização das indústrias. Estejam os robots ao serviço da pigmentação de carroçarias ou a filtrar mensagens de spam nas nossas caixas de correio.
Acredito que a Europa, antes da China, saberá trilhar este caminho, recentrando a Humanidade no Sentido da Vida.