Thursday, February 5, 2026

Quando o turismo deixa de ser lazer e passa a ser infraestrutura social


As tempestades que têm atingido Portugal nos últimos dias expuseram, de forma brutal, uma fragilidade estrutural que o país continua a adiar: a incapacidade de responder rapidamente a choques extremos que destroem habitações, rendimentos e estabilidade social.

Na Beira Litoral, Kristin deixou um rasto de destruição; no Alentejo, centenas de habitações foram inundadas numa única noite; no Ribatejo, as previsões apontam para um cenário semelhante.

Milhares de pessoas ficam, de um momento para o outro, sem teto, sem condições mínimas de sobrevivência e, sobretudo, sem um horizonte claro de regresso à normalidade.

Perante este cenário, persiste a tendência para olhar o turismo como um setor supérfluo, quando, na realidade, ele concentra um dos maiores reservatórios de know-how construtivo, logístico e operacional do país. O setor do turismo português desenvolveu, ao longo de décadas, uma capacidade ímpar de conceber e executar alojamentos modulares, rápidos, replicáveis e funcionais: bungalows, unidades pré-fabricadas, soluções em madeira ou light steel frame são produzidas em escala, montadas em poucas semanas e pensadas para conforto, eficiência energética e durabilidade. Esta competência existe, está instalada e é economicamente viável. Ignorá-la num momento de emergência humanitária não é apenas um desperdício de recursos: é um erro estratégico.

Importa, contudo, reconhecer que a resposta não pode ser pensada apenas como uma solução de curtíssimo prazo. Quem perde, em poucas semanas, aquilo que foi o maior investimento de toda uma vida, a habitação, não recupera em meses. Estas famílias enfrentam necessidades de médio prazo que envolvem estabilidade residencial, reorganização económica, continuidade profissional e manutenção dos laços comunitários.

O Estado, por mais diligente que seja, não consegue responder sozinho a esta escala temporal sem gerar dependência prolongada ou soluções precárias. A ausência de planeamento transforma uma catástrofe natural num problema social crónico.

É neste contexto que o turismo pode, e deve, assumir um papel diferente. Os alojamentos temporários que hoje podem ser mobilizados como resposta de emergência não precisam de ser descartáveis. Pelo contrário: se forem concebidos desde o início com uma lógica de ciclo de vida longo, poderão, numa fase posterior, ser integrados no setor turístico como complemento de rendimento das famílias afetadas ou como oferta estruturada de turismo social.

Esta lógica não é inédita em Portugal. Basta recordar que, aquando da Expo 98, foram construídos edifícios para alojar turistas que, mais tarde, foram integrados no parque habitacional, servindo hoje milhares de famílias. O que então foi um exercício de planeamento urbano pode agora ser replicado, à escala adequada, como planeamento social e territorial, aplicado a contextos de emergência climática.

A conversão destes alojamentos em soluções de turismo social introduz ainda uma segunda dinâmica virtuosa: a mobilização consciente da sociedade civil. O turista que sabe que a sua estada contribui diretamente para a reorganização e autonomia de famílias afetadas por catástrofes naturais deixa de ser um consumidor passivo e passa a integrar um ecossistema de responsabilidade coletiva. A estada transforma-se num gesto económico com impacto social mensurável, gerando receitas para manutenção e gestão das infraestruturas, reduzindo a dependência de apoios públicos permanentes e criando um modelo transparente de solidariedade aplicada.

No fundo, trata-se de uma mudança de paradigma. O turismo deixa de ser apenas uma atividade económica orientada para o lazer e passa a ser reconhecido como infraestrutura social flexível, capaz de responder à emergência, apoiar a reconstrução e, mais tarde, gerar valor sustentável para os territórios.

Uma resposta desta natureza não pode continuar refém da inércia política nem da lógica do remendo. Exige comando, coordenação e responsabilidade pública clara. O Turismo de Portugal e a PLANAPP não podem ser ilhas técnicas num mar de indecisão: é imperativo envolver as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, o IHRU – Institute for Housing and Urban Rehabilitation , a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil , a Direção-Geral do Território , os municípios e a economia social numa cadeia única de decisão.

As competências existem. Os instrumentos legais existem. Os recursos financeiros estão identificados. O que falta não é conhecimento nem capacidade técnica: é vontade política para assumir que o Estado tem de liderar. Se essa liderança não existir, o vazio será preenchido por soluções avulsas, oportunistas e desordenadas, que hipotecam o território e transferem para o futuro os custos da ausência de decisão no presente.

Num país estruturalmente vulnerável a choques climáticos, a falta de planeamento não é um erro administrativo: é uma falha política grave, cujas consequências recaem sobre todos.

Sunday, January 18, 2026

PRESIDENCIAIS2026: NADA FICOU NO MESMO LUGAR


Os resultados que revelaram a nova geometria política de Portugal.

As eleições presidenciais não escolhem apenas um nome para a segunda volta.
Revelam, de forma crua, como se reorganizam os blocos eleitorais do país.

Com os resultados apurados, já não estamos no domínio das sondagens nem das percepções.
Estamos no domínio dos factos.
E os factos dizem muito.
Resultados da primeira volta dos cinco candidatos mais votados:
- António José Seguro (PS): 1.753.655 votos
- André Ventura (Chega): 1.323.095 votos
- João Cotrim Figueiredo (IL): 900.829 votos
- Henrique Gouveia e Melo (independente): 694.752 votos
- Luís Marques Mendes (AD): 637.014 votos

Seguro: reunificação socialista confirmada

António José Seguro obtém 1.753.655 votos.
Ultrapassa claramente a base eleitoral socialista de 2025.

O Partido Socialista apresentou-se novamente como bloco unificado, depois da fragmentação interna dos últimos anos. Seguro não apenas reteve o eleitorado socialista, como expandiu-o. A reunificação do PS é hoje um facto político mensurável.

Ventura: base consolidada, expansão limitada

André Ventura obtém 1.323.095 votos, muito próximo da base Chega de 2025.
O Chega conserva praticamente intacta a sua base populista. Mas não consegue expandi-la significativamente nesta eleição presidencial.
Ventura passa à segunda volta, mas entra nela sem crescimento estrutural.

Cotrim: emergência de uma nova referência da direita

João Cotrim Figueiredo obtém 900.829 votos.
A IL tinha 338.664 votos nas legislativas. Isto significa que Cotrim quase triplica a base liberal, capta eleitorado para além da IL e atrai voto moderado de direita.
Ultrapassa claramente o candidato apoiado pela AD.

A direita portuguesa passa a ter uma nova referência eleitoral comprovada.
O espaço liberal deixou de ser nicho e passa a bloco relevante.
Independentemente dos próximos passos, esta noite redesenha a liderança do campo da direita moderada.
 
Marques Mendes: falha na retenção do eleitorado AD

Luís Marques Mendes obtém 637.014 votos, muito abaixo dos 2.008.437 votos da AD nas legislativas. Não conseguiu mobilizar sequer um terço do eleitorado natural da coligação que o apoiava.
E perde claramente para Cotrim o eleitorado moderado de direita.
A consequência inevitável é a fragilização estrutural da liderança do actual primeiro-ministro e reconfiguração futura do espaço partidário à direita.
 
Gouveia e Melo: voto independente com tecto definido

Henrique Gouveia e Melo obtém 694.752 votos.
Conseguiu captar eleitorado fora dos partidos tradicionais, mas não herdou o eleitorado socialista órfão, que se concentrou em Seguro.
O voto tecnocrático independente mostrou relevância, mas revelou também o seu limite eleitoral.

Fazendo uma leitura partidária, o PS recompõe-se, o Chega mantém-se, a AD falha a mobilização,  o liberalismo estrutura-se e o voto independente mostrou ter tecto.

Mais do que nomes, esta eleição revelou como o país se está a reorganizar politicamente.
E agora, a segunda volta enfrenta um Humanismo reunificado e um Chega consolidado.

Mesmo do lado de fora, Cotrim e Gouveia e Melo ganham espaço para o próximo ciclo político nacional.

A campanha que se segue já não é apenas presidencial.

Monday, January 12, 2026

Sobre denúncias, coragem e democracia

Denunciar assédio é um direito.
Sempre. Sem exceções.

Mas em qualquer sociedade justa, a denúncia exige responsabilidade.
Porque quando uma acusação é lançada no espaço público sem contexto, sem contraditório e sem possibilidade real de defesa, o que está em causa não é justiça, é linchamento reputacional.

Quem faz uma acusação pública sabe que a prova negativa é quase impossível.
Sabe que a dúvida basta para marcar.
E sabe que, em campanha eleitoral, o dano é imediato.

Isso não fortalece a democracia.
Fragiliza-a.


Se há factos, que sejam investigados.
Se há testemunhos, que sejam apresentados.
Se há verdade, ela resiste ao escrutínio.

O que não podemos aceitar é que a urna seja substituída pela insinuação, nem que a política se transforme num tribunal sem regras.

Dito isto, não escolho candidatos pela lama que lhes atiram: escolho-os pela coragem de permanecer de pé quando ela chega.

É por isso que apoio João Cotrim Figueiredo.

Friday, August 22, 2025

Autárquicas à porta: quem defende os territórios de baixa densidade?

Este verão foi claro: os territórios de baixa densidade continuam a arder. Literalmente. Os fogos florestais são a consequência daquilo que todos fingem não ver: a desvalorização da agricultura e da silvicultura na economia nacional.

Hoje, a floresta já não vale pela madeira nem pela captura de carbono: vale pelo Turismo, pelo lazer, pela experiência e pela paisagem. Mas os governos e muitos autarcas só se lembram destes territórios quando os combustíveis entram em inflamação, ou quando há fundos de coesão para distribuir. E como sabemos, dinheiro sem visão só perpetua o atraso.

A realidade é dura: enquanto em Portugal se discute o mínimo, investidores estrangeiros estão a transformar a ruralidade em ativo estratégico. O “fenómeno Comporta” não vai parar. Vai estender-se ao coração dos Açores e ao Centro de Portugal. Quem investe a partir dos EUA, de África ou da América do Sul já percebeu que aqui há futuro.
E os portugueses? Serão os últimos a perceber. E quando acordarem, os melhores lugares já terão sido ocupados.

Os estrangeiros sabem fazer contas. Os fundos estruturais, não.
Em outubro vamos a votos. A pergunta é simples: quem está preparado para transformar territórios periféricos em territórios de futuro – e quem vai continuar a olhar para eles como um Museu?

Sunday, October 29, 2023

Politicas Menos Poluentes para o Sector da Habitação

tayandmckay / Instagram
A imprensa inunda-nos com indicadores que demonstram a necessidade de mais planetas para manter o estilo de vida europeu e a população, diria que legitimamente, pretende incrementar a sua qualidade de vida.

Não pretendo responder totalmente ao desafio deste artigo, mas apenas acompanhar o leitor na reflexão.

Quais os factores que importam para a nossa qualidade de vida? Alimentação saudável? Companhia dos entes queridos? Conforto térmico? Reconhecimento profissional? Velocidade e ou Aventura?

Todos estes factores permitem ser satisfeitos com frações das atuais emissões carbónicas.
Podemos ter uma alimentação saudável sem os atuais niveis de consumo de carne animal, podemos visitar e ser visitados por aqueles que amamos sem a recurso a uma mobilidade a combustão, aquecer e arrefecer as nossas casas alimentadas a energia solar, desempenhar remotamente as nossas funções profissionais em contexto social e ambiental, que permitem melhores niveis de concentração e concretização que os colegas in office.
E claro, pedalar ou parapentear até que a garganta nos doa!

Acredito que não existe uma relação de proporcionalidade entre qualidade de vida e o nível de emissões de gases para a atmosfera.
Mas para conseguirmos atingir esses objectivos, precisamos de analisar aquilo que nos realiza e confrontar com as emissões que promove.
E chegaremos à conclusão que uma parte muito significativa das nossas emissões não impacta na qualidade de vida.

Esta reflexão leva-nos a outra, identificada através da análise do INE à dimensão das habitações em Portugal, que revela que mais de metade tem uma área superior 100 m2.
Ora, somos um dos países onde as habitações são mal construídas e termicamente ineficientes, e isso implica elevados niveis de energia para as manter confortáveis.

Se a população adulta portuguesa já se conformou com esta realidade, os jovens e os estrangeiros ainda não.
E por isso, encontramos nestes dois segmentos os clientes das Micro-Casas em Portugal: encontram o seu conforto em habitações móveis com ± 30m2 de área, instaladas em terrenos com alguns hectares de floresta ou pomares.

E se identifica neste texto uma linha condutora, o mesmo não acontece nas politicas públicas: proclama-se o combate às alterações climáticas mas mantém-se a legislação que promoveu uma tipologia de habitação que nos trouxe à insustentabilidade.
Não é um problema exclusivamente português nem sequer europeu: em todo o mundo atira-se para a ilegalidade quem procura um estilo de vida que terá de ser maioritário no mundo nas próximas décadas.

Friday, May 26, 2023

Estou farto e cansado

Eduardo Marçal Grilo

25 de maio de 2023

In Jornal Público

Estou cansado e triste quando vejo os militantes dos partidos abdicarem de dizer o que pensam.

Sim, estou farto de quase tudo o que ouço e vejo à minha volta.

Mas também estou cansado de ouvir e ler sempre os mesmos a dizerem as mesmas coisas, como se conhecessem as soluções para todos os problemas, mas que nunca nos apresentaram uma única ideia ou proposta para a solução dos problemas com que o país se confronta.

Sim, estou farto de ver os políticos a criar conflitos inúteis, como estou farto de ver as televisões a massacrar os telespectadores com programas de futebol intermináveis e em que para entreter se criam conflitos sobre penalties , expulsões e foras-de-jogo.

Estou cansado de ler as notícias da corrupção que corrói a democracia e alimenta os populismos.

Estou cansado de ver os moderados sem voz e sem presença nos media .

Estou cansado e triste por ver pessoas “queimadas” na praça pública com notícias falsas ou com acusações infundadas.

Estou farto de ver títulos de jornais que não correspondem à notícia a que se referem.

Estou farto de conferências, colóquios e seminários em que os que falam e os que ouvem são sempre os mesmos.

Estou farto dos debates em que nós todos já sabemos o que cada um vai dizer.

Estou cansado e triste quando vejo os militantes dos partidos abdicarem de dizer o que pensam.

Estou farto de ver gente em lugares de responsabilidade comportarem-se como membros de uma associação de estudantes do ensino secundário.

Estou cansado e triste por ver deitados para o lixo trabalhos que foram feitos por organizações credíveis que só querem contribuir para melhores soluções para os problemas do país.

Estou farto da arrogância de alguns que nos querem impor as agendas das minorias.

Como também estou cansado dos excessos em torno da cultura de género.

Estou cansado das notícias que justificam que os processos judiciais se tornem intermináveis.

Estou farto dos que lucram com todo este emaranhado jurídico dos processos lançados pelo Ministério Público.

Estou também indignado com os processos lançados contra pessoas que, quando julgadas, se provou nada terem feito de mal.

Estou farto de ver incompetentes a exercer cargos para os quais não têm qualquer qualificação.

Estou cansado e farto de ver nas televisões o rigor substituído pelo espetáculo.

Estou farto de ver muita gente mais interessada em estar do lado do problema do que do lado das soluções.

E também estou cansado de ver que em certos casos são eles mesmos o problema.

Como também estou cansado dos que gostam mais de destruir do que construir.

Estou cansado de ver tanta inveja e tanta vontade de deitar abaixo os que fazem qualquer coisa que se veja.

Confesso igualmente que estou cansado das notícias sensacionais que duram menos de 24 horas, porque foram forjadas com objetivos inconfessáveis.

Estou cansado de não ver enaltecido o que de muito bom se faz em Portugal, seja nas empresas, nas universidades, nas escolas ou nos hospitais.

Como estou farto de ver aqueles que, como portugueses, gostam de se autoflagelar.

Estou cansado de ver televisão e até de ler jornais.

Sim, estou cansado de viver num país que adoro, mas que me traz grandes frustrações quase todos os dias.

Tanta frustração deve talvez ser da idade e da falta de paciência que tenho para aturar tantos disparates.

Nota final: estou triste, cansado e farto de muitas coisas, mas não sou um desistente.

Estarei sempre disponível para lutar contra os populismos e contra os inimigos da democracia, procurando que não nos toquem na liberdade e que, sem complexos ideológicos, se encontrem, com moderação, equilíbrio e bom senso, as soluções para os problemas que enfrentamos.

Sunday, December 4, 2022

O Erro do Retalho

Não sei há quantas décadas foi inventado o "cheque-presente".
Uma técnica de vendas que servia garantir que o beneficiário recebia um produto/serviço que corresponderia com os seus desejos.

A rede de distribuição SONAE tem lojas para todas as necessidades: alimentação; saúde; vestuário; electrónica.
Existe alguém que possa tirar melhor partido dos cheques-prenda?

Um cheque-prenda SONAE permitiria que o beneficiário comprasse aquilo que precisa. O cliente pode ter em mente que estará a oferecer uns headphones bluetooth com redução de ruído, mas a realidade pode ser bem diferente, como endereçar esse valor para um amigo que precisa de ajuda para a conta do supermercado.

Num periodo particularmente conturbado, com 4 milhões de potenciais pobres, não cabe às corporações substituirem-se ao Estado. Apenas o dever de responderem com inteligência aos novos contextos sociais.

Ganha quem antecipa.